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delicadeza sim, por favor

delicadeza sim, por favor

por Mariana Paiva

Há uma força poderosa de mudança tão importante quanto o amor, mas quase não se ouve falar nela. É que é discreta, caminha na pontinha do pé. Não faz declarações nem assina papéis como o amor. Vai existindo quase que sem nenhum alarde, como um vizinho silencioso que não se vê chegar nem sair de casa. Seu nome: delicadeza. 

Sobre ela, nada sabe a turma do "não precisa". Quem defende que a vida não precisa ser assim tão boa na escola e que pode apenas passar com média 6 não chegou sequer a trocar algumas palavras com a delicadeza. Vai vivendo apenas, rude como um personagem de Clint Eastwood num faroeste qualquer. Cara amarrada, ruga na testa, que conta vence hoje? E então nunca se tem nada maravilhoso. Sim, porque se a felicidade existe, ela certamente anda de mãos dadas com a delicadeza.

Como uma bandeja de corações cheia de brigadeiros feitos especialmente para você, sem leite, como você precisa. Camila passeando pelas gôndolas do supermercado, escolhendo ingredientes, pensando em como fazer tudo ficar mais feliz. Vai ter quem leia e diga que "não precisa". Mas a delicadeza sutilmente ignora o que ouve:  segue enrolando os brigadeiros, misturando os biscoitos à procura daquele inconfundível sabor de alegria. A delicadeza leva a gente pra casa, mesmo tantos quilômetros além. 

Como meu pai sempre presente, mesmo longe, me ensinando a lição fundamental da vida: enfeitar tudo, tornar tudo festa pros sentidos. O olho quer ver bonito, a boca quer comer gostoso, o nariz quer cheiro bom. A pele quer abraço, os ouvidos precisam de música. Esse amor libriano de quem adora a beleza das pequenas coisas e segue conquistando tudo assim, delicado, segurando a porta pro vizinho, dando bom dia a quem passa, oferecendo ração molhadinha ao gato de rua. "Tudo que é bom é bonito", cresci ouvindo e tentando fazer. Mas é que "é preciso estar atento e forte", como diz a música. Não vacilar um só instante dessa missão que é ser delicado, apesar de tanta coisa.

E então uma crônica que inspira tudo, tão definitiva que termina essa: "Tempo de delicadeza", de Affonso Romano de Sant´Anna, é uma das coisas mais inesquecíveis que já li. E corajosas. Ele diz: "Sei que vão dizer: a burocracia, o trânsito, os salários, a polícia, as injustiças, a corrupção e o governo não nos deixam ser delicados. - E eu não sei? Mas de novo vos digo: sejamos delicados. E, se necessário for, cruelmente delicados". 

(e nem preciso dizer mais nada)

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Mariana Paiva

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